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A hipocrisia liberal do jornalismo hegemônico





Numa fria manhã de outono, domingo de ramos, ante a surpresa de todo o público leitor, o jornal Folha de S. Paulo publicou editorial na sua capa intitulado "Legalizar drogas leves, droga e eutanásia". E,como Cesar se referia sempre a si mesmo em terceira pessoa, a Folha faz o mesmo no seu subtítulo: "Para a Folha, brasileiros devem ter autonomia para gerir suas vidas, ao Estado cabe educar mais e proibir menos".

Provavelmente o que motivou este editorial de capa é a percepção do estrago feito no pensamento da maioria da sociedade brasileira com a campanha sistemática feita por aquela Folha e demais órgãos de comunicação de massa hegemônicos contra os governos petistas, particularmente com o apoio ao lawfare da Lava Jato e que redundou no golpe de 2016 e a ascensão da extrema direita. Os apoios que aquela Folha expõe no seu título são cada vez mais rejeitados pela maioria da população segundo pesquisas feitas pelo proprio instituto do jornal, o DataFolha: 67% são contra a descriminalização da maconha e 77% são contra a descriminalização do aborto (destes, 42% defendem a atual legislação que permite em algumas situações e 35% querem que o aborto seja proibido em qualquer caso). Pior que os resultados foi a constatação de que estes percentuais tem aumentado. 

Estas bandeiras da Folha de S.Paulo são defendidas pela "esquerda", porém aquela Folha afirma que a defesa da descriminalização da maconha, aborto e a eutanásia deveria se inserir na concepção de uma total "liberalização" da sociedade na qual o Estado não deveria interferir em decisões dos cidadãos nem tampouco na economia, concepção presente na direita que, entretanto, é contra estas liberdades defendidas no editorial da Folha.

"As liberdades de empreender e de apropriar-se dos frutos do trabalho sem sofrer embaraços do governo compõem o graal da direita", afirma o editorial, e na sequência: "Setores da esquerda tendem a ser a imagem espelhada deste paradoxo, ao valorizar liberdades sexuais, reprodutivas e alucinógenas, mas exigir intervenções e proibições na economia e, mais recentemente, censura contra alguns discursos". 

Dentro deste paradoxo que leva a tal "polarização política" desfavorável para a sociedade, eis que ergue a voz da sensatez de quem representa o desejo daquele yuppie que quer fumar maconha sem qualquer risco, poder abortar uma criança indesejada sem ter que pagar pela clandestinidade e, ao mesmo tempo, usufruir de empregados contratados sem qualquer regulação nos seus empreendimentos. E poder expressar-se livremente nas redes sociais um discurso racista ou misógino como direito à plena liberdade de expressão. 

A edição deste domingo é a plena expressão deste desejo. No caderno Ilustríssima, a surrada crítica ao "identitarismo" dos movimentos negros e feministas a partir de uma entrevista de duas páginas com Susan Neiman (que já tinha merecido matéria sobre o seu livro "A esquerda não é woke" duas semanas atrás no mesmo caderno) e a denúncia do preconceito contra os "pardos" em artigo de Danichi Hausen Mizoguchi por conta do problema ocorrido com dois alunos na banca de heteroidentificação da USP (apesar da esmagadora maioria dos alunos aprovados nas cotas raciais serem pardos e em nenhum momento a argumentação da USP foi que eles não entrariam na cota por serem "pardos"- o que houve foi justamente uma avaliação de que eles não eram pardos ou pretos). 

E finalmente o símbolo do comportamento "adequado" é expresso na crônica de Antonio Prata quando fala das suas relações com pessoas que se encontram na porta do colégio dos filhos e em algumas cerimônias. Diz ele: "A relação que tenho com esses pais e mães é o exato oposto do que acontece em uma bolha. Na bolha, o que une a todos é a embalagem político-ideológica, pouco importando quem está dentro do pacote. Aqui, cada um pensa de um jeito, mas temos algo em comum mais valioso a preservar, o bem estar dos nossos filhos - e o nosso bem estar no elevador".

Em outras palavras, o incômodo que gera o tal "jornalismo crítico, apartidário e profissional" daquela Folha é o desejo de quem tem recursos poder usufruí-los plenamente da forma que quiser e sem qualquer importunação (incluído os meninos de rua que roubam celulares no centro da cidade - alô, poder público, vamos limpar a cracolândia!). E que o governo não interfira no mercado de ações que podem prejudicar os fundos de investimento que garantem uma renda extra e também nas regras de contratação de trabalhadores. Afinal, não dá para aumentar o montante gasto com a faxineira do condomínio e a diarista. 

Haja hipocrisia dos liberais brasileiros.


(*)Propositalmente, esta abertura do texto é baseada no inicio do texto "Debates sobre liberdade de imprensa e comunicação" de autoria de Karl Marx, publicado originalmente em Reinsche Zeitung em 1842 e constante da coletânea: MARX, K. Liberdade de imprensa. S. Paulo: L&PM Pocket, 2020.

(**) Todas as menções do jornal Folha de S. Paulo são da edição de 24/03/2024



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Existe algo mais hipócrita que a mídia liberal burguesa?

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