Nota de pesar - Professor Ciro Marcondes Filho

O professor Ciro Marcondes Filho impactou-me ainda como recém formado com a obra "O capital da notícia" no qual ele defende a ideia de que o principal objetivo do jornalismo hegemônico é vender o produto, pois se trata de uma empresa capitalista como outra qualquer. Por que tive este impacto? Porque a maior parte das críticas ao jornalismo hegemônico se concentrava no aspecto ideológico, como se o principal objetivo era manipular consciências, parecendo muito como se fosse uma teoria da conspiração. E aí tais concepções encontravam dificuldades quando, no período de redemocratização, veículos da mídia hegemônica passam a abrir espaços para narrativas consideradas desviantes ou invisibilizadas, como as dos movimentos sociais - confusão esta que foi muito intensa com o projeto Folha nos anos 1980. A discussão que o professor Ciro faz era extremamente pertinente, pois apontava que como empresas capitalistas, necessitavam comercializar narrativas que estavam dentro do "espírito do tempo". E, com base nisto, que o professor Ciro apresentava uma concepção de ideologia extremamente instigante - como um modo capitalista de pensar, funcionando nas estruturas inconscientes, que tinha como viagem psicodélica de um LSD a ida ao shopping center, como ele escreve na coletânea de artigos intitulada "Quem manipula quem". O seu rigor teórico e intelectual o fez considerar o jornalismo como algo sem possibilidades, como escreve em "Jornalismo fin-de-siecle" e mesmo na reflexão histórica do jornalismo em "A saga dos cães perdidos". Todos estes textos acompanhei durante o curso de pós-graduação na ECA e no início da minha carreira docente e o que me impressionava não era só sua grande produção mas a densidade das suas reflexões e, principalmente, a sua preocupação com o afastamento de uma possibilidade de uma sociedade baseada no esclarecimento. Em 2017, tive a oportunidade de dialogar com o professor Ciro Marcondes Filho em um seminário no Instituto de Estudos Avançados (IEA) sobre os modelos curriculares para o ensino de jornalismo (https://youtu.be/USo5FlcaBnI) onde ele aponta os dilemas da área a partir da sua experiência como docente. Foi um momento ímpar para minha carreira docente ter a oportunidade de estar ao lado deste grande intelectual que marcou o departamento de jornalismo, a ECA, a USP e toda a área de comunicação. É pessoas assim que fazem a universidade e o trabalho intelectual valer a pena. 


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