Não maltratem mais a Mãe Terra

Atualizado: 10 de Abr de 2020

Fiquei isolado aqui pelo litoral de São Paulo. A quarentena imposta pelas autoridades para combater a disseminação do coronavirus obriga a gente a mudar as formas de viver. Imagina ficar em uma cidade do litoral, verão, sol a pino e não poder ir a praia, ou tomar uma cerveja no boteco.

De qualquer forma esta minha ida era por poucos dias, mas por conta da quarentena tive que ficar muito mais tempo. Aí bateu a preocupação: não trouxe roupa suficiente para mais que quatro dias. E como diz o ditado, a necessidade faz o ladrão. Diante da situação, foi possível sim viver com o que trouxe, só ir lavando a roupa que tinha, usando o que era possível sem qualquer vaidade consumista.

E aí lembrei-me dos livros do Zygmunt Bauman que falava que vivemos em um “capitalismo de excessos”, isto é, tivemos aumentos de produtividade imensos nos últimos 50 anos, graças ao avanço tecnológico. Mas ao mesmo tempo, estes avanços tecnológicos como foram apropriados para a reprodução do capital serviram muito mais para reduzir o numero de pessoas que trabalham. Produz-se mais com menos gente empregada.

Só que aí a conta não fecha. Com menos gente empregada, a miséria aumenta e ao mesmo tempo que se produz mais mercadorias, tem menos gente que podem consumir. É aí que Bauman propõe o conceito de “consumo intensivo” ou o brasileiro Muniz Sodré fala do “turbocapitalismo”. O consumo intensivo significa o seguinte: as mesmas pessoas que tem poder de consumo hoje são instigadas para consumir ainda mais. Quem tem um celular, é incentivado a trocar por um outro mais novo a cada seis ou sete meses, se você tem uma linha, a operadora te empurra uma outra (como se fosse necessária mais de uma linha), uma casa com três pessoas cada um tem um carro, a cada ano, os aparelhos eletrônicos ficam obsoletos e o conserto fica mais caro que a compra de um novo e assim vai. E toda a tranqueirada velha para onde vai? Lixo!

O mesmo Bauman disse que a cidade de Londres produz uma quantidade de lixo por ano equivalente a quatro vezes o tamanho da sua cidade.

O automóvel, símbolo da modernidade, usa apenas 3% da energia que ele produz para carregar o seu condutor, o resto é para mover ele mesmo e resíduos eliminados para a atmosfera.

Os avanços tecnológicos do capitalismo não são apenas trágicos. Descobertas científicas nos anos 1960 possibilitaram a cura de muitas enfermidades, hoje a humanidade é muito mais longeva. As tecnologias de informação e comunicação permitem que esta quarentena forçada de hoje seja atenuada com a possibilidade de conversar com os amigos, familiares. Grupos de psicólogos organizaram terapias em grupo pela internet com pessoas que estão deprimidas. Tem um grupo de amigos que até fizeram um “churrasco virtual”, cada um na sua casa comendo uma carne e tomando uma cerveja e conversando pelo hangout. Eu mediei um debate sobre o coronavirus e a periferia para um canal da internet com cada um dos participantes nas suas casas. E ainda as informações sobre esta crise chegam de forma instantânea para a gente. Tem as fake news, mas prefiro acreditar que isto são os efeitos colaterais.

Mas este modelo de sociedade em que cada vez mais se concentra riquezas vai criando mundos à parte. Nem todos podem usufruir de todos estes avanços. Ao mesmo tempo, uma casta de bilionários enriquece como verdadeiros parasitas, sem qualquer contribuição à sociedade. É o turbocapitalismo de que fala o brasileiro Muniz Sodré. Ganha uma grana e aplica no cassino do mercado rentista. Rende mais dinheiro e vai indo neste caminho. E vai turbinando ainda mais o seu consumismo, não basta um palacete, precisa de dois, três, não basta um carrão, tem que ter três, quatro... “Compra” ilhas, se isola do mundo, viaja de jatinhos e helicópteros.

Na outra ponta, milhões de famintos desesperados vão em busca do mínimo para sobreviver. O mesmo mundo que conectou todas as localidades pela internet e mandou sondas à Marte convive com pessoas em busca de água potável. Como pensar em quarentena para aqueles que sua casa é a rua?

No topo, os milionários consomem de forma turbinada e isto exige um consumo predatório dos recursos naturais para produzir os artefatos que usam. Na base, os miseráveis catam o que ainda resta da natureza para sobreviver.

E a mãe Terra vai agonizando. Os sábios dos povos originários da América já ensinavam a importância do Bem Viver. Os povos originários do Alto Xingu falavam do perspectivismo. O que é isto? Viver em equilíbrio com os sentidos da vida de todos os seres vivos. Não é preservar a natureza, mas viver com ela. Em diálogo como dizia o mestre Paulo Freire. Conforto não é opulência. Viver bem não é oprimir o outro. A mãe Terra ou Pachamama também é sujeito e está alertando. Este vírus é a lágrima da Pachamama que está dizendo: “eu não aguento mais!”

Quem não acha que Deus é cartão de crédito entende o que estou falando. Não adianta acreditar em vida após a morte se nem a vida aqui a gente consegue dar conta.





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